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Sair do euro, e depois?
Por Rudo de Ruijter,
Investigador independente
Países Baixos
O euro é uma moeda muito prática, mas ela faz milhões de vítimas. Este
artigo explica de um modo simples porque o euro não pode funcionar e expõe as
vantagens de uma passagem para um sistema de dinheiro do Estado.
- Não, a cooperação europeia não cessará sem o euro!
- Sim, estaríamos bem melhor com dinheiro do Estado!
O euro tem um problema insolúvel. Os países que agora estão gravemente
endividados, se conseguirem libertar-se à custa de reduções de despesas do
Estado, previsivelmente endividar-se-ão novamente.
É porque estes países são vítimas de uma falha fundamental no euro. Já antes
do arranque do euro economistas haviam advertido que uma moeda única não pode
funcionar senão quando todos os países participantes são economicamente
homogéneos. [1] [2] [3]
Neste momento não há nada que impeça consumidores gregos de
preferirem produtos da Alemanha melhores e mais baratos. E quando a Grécia
importa mais do que exporta, as suas dívidas aumentam. A mesma coisa vale para
todos os países menos produtivos na zona euro. Eles poderão reduzir suas
despesas tanto quanto quiserem e privatizar todas as infraestruturas, mas a
crise de dívida seguinte nunca estará muito longe!
Eis porque. Quando os consumidores nos países menos produtivos preferem produtos
importados menos caros e melhores, a dívida externa aumentará, ao passo que a
produtividade do país diminuirá. Quando um país dispõe da sua própria moeda, ele
pode desvalorizá-la. Isso aumentará o preço dos produtos importados e
diminuirá o preço dos seus próprios produtos para a exportação. A dívida
diminuirá e a produtividade aumentará novamente. As desvalorizações eram
habituais antes do início do euro.
Com o euro as desvalorizações não são mais possíveis e os países acabam
embaraçados em dívidas. Mas quando os países comprometem-se a fazer parte da
zona euro, eles obrigam-se a reduzir a sua dívida pública abaixo de 60% do seu
produto nacional bruto (PNB) e o seu défice fiscal abaixo de 3% do PNB. Quando
ultrapassam estes limites os outros países consideram isso como um perigo para a
estabilidade do euro. Estes outros países imporão sanções aos governo
endividados para obrigá-los a tomar medidas adequadas (como se existisse uma
solução duradoura) e, se isso não funciona, estes outros países concederão
empréstimos (que, seja dito de passagem, aumentam a dívida externa!),
acompanhados por condições severas, como reduções de despesas públicas –
licenciamentos de funcionários, cortes nos orçamentos de educação, cultura,
assuntos sociais, exército, etc – e obrigações de vender propriedades do Estado,
infraestruturas e serviços públicos! (Desconfiem quando ouvirem políticos dos
países mais ricos dizer que vão ajudar os mais fracos!)
Não é um acaso o facto de que sejam a Grécia, a Espanha e a Irlanda os países
hoje mais severamente afectados. Economicamente estes países não podem ser
comparados a um país como a Alemanha. A partir do momento em que uma crise
atinge a zona euro, torna-se claro que a zona não é homogénea; há países fortes
e países fracos. A Europa é composta por países fortes e países fracos. A Europa
é composta por países muito diferentes com economias muito diferentes com
potenciais de produtividade muito diferentes.
De facto, é impossível utilizar uma moeda única numa zona tão heterogénea
como os 23 países da zona euro. Apesar das advertências de economistas, os
políticos decidiram introduzi-lo mesmo assim. Para os seus partidários não era
uma questão de inventar regras de jugo e convencer os países a assinarem
acordos, para o efeito eles teriam de se ater a estas regras. Pois bem, pode-se
por assinaturas sobre bocados de papéis, mas isso não torna possível aquilo que
não o é. Hoje, 20 dos 27 países da União Europeia não podem satisfazer as
exigências orçamentais.
[4]

As diferenças de produtividade não são temporárias.
Diferenças intrínsecas são relacionadas com o clima local, a situação
geográfica, a fertilidade do solo, a presença de água e de energia, as
distâncias a cobrir, às dificuldades de transportes e a outras coisas
invariáveis. Elas determinam em grande medida o fracasso ou o êxito de
actividades económicas. Cada país desenvolveu sua própria economia típica, uma a
apoiar-se um pouco mais sobre a agricultura, outro sobre a indústria pesada,
outro ainda sobre o transporte naval e o comércio, etc. Por estas razões uma
"política financeira de conjunto" jamais poderá convir a todos os países.
O exemplo do dólar?
Muitas vezes menciona-se os Estados Unidos como exemplo com "êxito" de uma zona
de moeda única. Contudo, uma diferença crucial é que ali toda a gente fala a
mesma língua e assim as pessoas podem deslocar-se muito mais facilmente para os
lugares onde há actividades económicas. Na Europa a mobilidades internacional do
trabalho é relativamente restrita, não só por causa das barreiras linguísticas
como também porque temos países antigos com pessoas que estão enraizadas nas
suas tradições e culturas.
Dito isto, pode-se perguntar se se pode ao dólar um caso de êxito de uma moeda
única. [5]
Desde 1973 os Estados Unidos importaram muito mais do que exportaram e com uma
dívida em crescimento vertiginoso e não dominável o país vive como um parasita
que se alimenta de quase todos dos países do mundo. O exemplo do dólar seria
antes uma prova de que um moeda única numa zona heterogénea não é possível sem
uma exploração maciça de outros países.
Sair do euro?
Compreender que o euro não pode funcionar é uma coisa. A seguinte é ainda mais
importante. Demonstrarei que retornar simplesmente para as nossas moedas
anteriores é uma solução muito má. Certamente, teremos de novo a
necessidade de moedas nacionais mas, se quisermos evitar os erros do passado,
teremos necessidade de dinheiro emitido pelo Estado. (O que é o que a maior
parte das pessoas pensa que acontece hoje.)
Para compreender porque o dinheiro do Estado é tão importante, devemos
compreender o que é o dinheiro e como funciona. O dinheiro actual não é posto em
circulação e nem gerido pelo governo. Ao invés disso – e para muitas pessoas
isso pode parecer incrível – quase todo o dinheiro que existe hoje foi posto em
circulação por bancos comerciais de modo secreto (e enganoso). De facto, vocês
não têm dinheiro nas vossas contas bancárias – apenas números. Estes números são
uma "ilusão de dinheiro". No vosso extracto bancário é mencionado quanto o
banqueiro vos deve, mas este dinheiro não existe, à parte uma fracção minúscula.
Naturalmente, desde que você possa pagar com este dinheiro falso, isso vos é
indiferente.
[6]
Entretanto, como demonstrarei abaixo, é este logro no sistema bancário que
permite aos banqueiros fazerem inchar a massa de dinheiro de modo permanente, o
que constitui um perigo para a nossa sociedade. Os banqueiros corromperam todas
as moedas do mundo com os seus truques contabilísticos secretos. O euro não é
uma excepção.

O segredo do dinheiro
Hoje, menos de 5% de todo o dinheiro sob forma de bilhetes e moedas é verdadeiro
dinheiro. O resto foi criado artificialmente pelos bancos e não existe senão sob
forma de números em contas bancárias. Quando você toma dinheiro emprestado no
banco, o banco não vos empresta do dinheiro existente. Ao invés disso ele cria
um novo montante, simplesmente teclando números na vossa conta. Em seguida você
paga juros sobre este dinheiro novo. Muitas vezes trata-se de montantes
importantes. Habitualmente, alguém que paga a sua casa em 20 ou 30 anos paga
quase tanto de juros como de reembolsos. De facto ele paga duas casas. Uma para
si mesmo e uma para o seu banqueiro!
[7]
No momento em que alguém compra uma casa, o dinheiro do seu empréstimo é lançado
na conta do vendedor. Este gastará este dinheiro em outras coisas. Assim o
dinheiro do empréstimo começa a circular na sociedade. Todo o dinheiro na
sociedade começou como um empréstimo. Cada banqueiro colecta juros sobre o
dinheiro que criou e todos os bancos reunidos colectam juros sobre todo o
dinheiro que existe. Se tiver dinheiro no bolso ou na vossa conta, há alguém em
algum lado que paga juros sobre este dinheiro a um banqueiro. Quando alguém
reembolsa o seu empréstimo, o dinheiro, que foi criado a teclar na conta, é
destruído deduzindo-o desta conta. Neste momento, este dinheiro já não existe.
Portanto, todo o dinheiro é temporário. O montante total existente representa a
parte dos empréstimos emitido ainda por reembolsar. Isso quer dizer que o
montante do dinheiro total na sociedade é um montante arriscado. Ele nada tem a
ver com as necessidades da sociedade para o intercâmbio normal de bens e
serviços.
Inflação eterna
Pior ainda: os banqueiros concedem cada vez mais empréstimos e assim criam cada
vez mais dinheiro. Quando se utiliza mais dinheiro para comprar um mesmo número
de bens e serviços, o valor de cada unidade de dinheiro diminui e os preços
aumentam. É a bem conhecida inflação.
[8] O
chefe de orquestra desta inflação é o banqueiro central. Quando ele baixa a sua
taxa de juro, indica aos bancos que devem acelerar a distribuição de créditos (a
taxas mais baixas as pessoas tomarão mais emprestado e mais facilmente) e,
inversamente, quando aumenta a sua taxa o crescimento da massa de dinheiro
enfraquecerá.
Os banqueiros têm necessidade de inflação
Os banqueiros têm necessidade de inflação.
[9]
Quando a criação de dinheiro é acelerada, torna-se mais fácil para o tomador do
empréstimo ganhar as somas de que tem necessidade para pagar a sua dívida. Isto
é uma vantagem para o tomador, mas igualmente para os banqueiros. Isso garante
menos incumprimentos de pagamento.
O facto de que o principal de um empréstimo terá diminuído de valor no momento
em que é reembolsado não preocupa o banqueiro. Com efeito, os montantes
reembolsados pelo principal não continuam a existir. Lembrem que o banqueiro
criou este montante ao teclar numa conta e destruiu-o no momento do reembolso
deduzindo-o desta conta.
Quanto aos juros, é uma outra história. Estes juros não fazem parte do dinheiro
que o banqueiro criou para o empréstimo e estes montantes não desaparecerão no
momento em que são pagos. Eles são os lucros do banqueiro! É verdade que o seu
valor terá diminuído por causa da inflação. Mas não tenha pena do banqueiro.
Vocês podem estar certos de que ele viu este problema antecipadamente e que
elevou a sua taxa desde o início para compensar esta desvalorização.

Não há possibilidade de uma
sociedade sustentável
A inflação tem outro aspecto importante. Se não quisermos nos empobrecer,
devemos trabalhar sempre mais para compensar a perda de valor do nosso dinheiro.
Esta é razão porque a inflação causa cada vez mais actividade económica. Dito de
outra forma, com um sistema bancário inflacionista jamais será possível alcançar
uma sociedade durável e equilibrada.
Poder financeiro
A massa de dinheiro sempre crescente cria uma situação na qual tudo se torna
comprável, mesmo o Estado. Em muitos países, grupos financeiros já compraram
serviços públicos para transformá-los num rio de lucros contínuos: os serviços
de distribuição de gás, de electricidade e de água, os transportes públicos, os
correios, o telefone, tarefas de polícia, as prisões, a saúde pública, os
serviços de colecta de lixo, etc. Isto é um processo contínuo. Os banqueiros e a
elite financeira tomam cada vez mais decisões de investimento que moldam a nossa
sociedade e o Estado toma cada vez menos.
Isto tem consequências. O dinheiro e o lucro determinam hoje o que é "bom" para
a nossa sociedade. Mas isso não é tudo. Uma vez que o governo fornece cada vez
menos serviços aos seus cidadãos, ele perde o reconhecimento de autoridade
natural. Ao invés de ser uma instituição que cuida da sua população, o governo
está em vias de se tornar um esqueleto, o qual tem necessidade de cada vez mais
opressão para impor decisões de visão curta e para o curto prazo. Ao invés de
ser o garantidor das liberdades individuais, o governo autoriza e mesmo favorece
que todos os cidadãos sejam postos sob vigilância electrónica, efectuada tanto
por organizações do Estado como privadas, com milhares de câmaras, ligadas a
bases de dados interconectadas. O KGB era uma escola maternal em comparação com
a vigilância electrónica de hoje, em crescimento rápido.
O euro
O euro é uma moeda pertencente ao Banco Central Europeu (BCE) com sede em
Frankfurt.
[10] O BCE pertence aos bancos centrais dos países participantes.
[11]
Apesar dos seus nomes, que se assemelham aos de instituições do Estado (Deutsche
Bundesbank, Banque de France, etc), todos eles são independentes do
governo e a maior parte é dirigida por conselhos privados.
[12]
Apesar do seu carácter privado, o BCE é um órgão oficial da União Europeia.
Graças ao artigo 7 do Sistema Europeu dos Bancos Centrais (SEBC) e ao artigo 107
do Tratado de Maastricht, o BCE desfruta de uma independência total.
[13]
Note-se que esta independência não decorre de alguma necessidade lógica ou
organizacional, mas deriva da crença de que somente banqueiros centrais
independentes são capazes de gerir o sistema do dinheiro convenientemente. Pois
bem, se hoje não pusermos em causa esta crença quando o faremos?
[14]
O governo europeu
Em 1957 arrancou a Comunidade Económica Europeia (CEE). Desde o princípio
faltou-lhe governação democrática: o parlamento não tinha senão um papel
consultivo. Os fins da CEE eram a cooperação económica e política entre a
França, a Alemanha, a Itália, a Bélgica, os Países Baixo e o Luxemburgo.
Em 1967 houve uma concentração de poder, quando a CEE, o Euratom e a Comunidade
Económica do Carvão e do Aço tornaram-se as Comunidades Europeias. Os direitos
de veto dos países individuais foram igualmente abolidos em muitos domínios. Uma
vez feito isto, os banqueiros intrometeram-se. Em 1970 Pierre Werner, um
banqueiro influente do Luxemburgo
[15] ,
traçou os planos para a moeda colectiva.
Bretton Woods
Pierre Werner foi um dos participantes na Conferência de Bretton Woods, em 1944,
que foi fortemente dominada pelo espírito agressivo da Segunda Guerra Mundial.
Nesta conferência foram decididos os princípios para o comércio e a finança
mundiais. Os países agora teriam de ligar a sua divisa ao dólar e manter as suas
taxas de câmbio estáveis. Isso foi benéfico para o comércio e a finança
internacional. De facto, o que este princípio exprimia é que a facilidade para o
comércio e a finança internacional era mais importante que a faculdade dos
países de poderem adaptar-se a mudanças do ambiente internacional. Além disso,
através deste acordo os EUA foram virtualmente proclamados o "mestre do mundo",
uma vez que todos os países teriam de adaptar as suas divisas ao dólar, ao passo
que os Estados Unidos podiam fazer o quisesse.
Nesta mesma conferência foi estabelecido o Fundo Monetário Internacional (FMI),
assim como os precursores do Banco Mundial e da Organização Mundial de Comércio.
Os cavalheiros de Bretton Woods sabiam muito bem que os países mais fracos
sofreriam com os seus projectos. O FMI, e mais tarde igualmente o Banco Mundial,
recebiam o papel de fornecedor dos créditos a estes países. Eles eram
acompanhados de condições severas, como reduções de despesas públicas, o que
geralmente implica graves consequências para a educação e a saúde pública. Na
prática, o FMI e o Banco Mundial enterravam em dívidas os países em
desenvolvimento. As dívidas destes países tornavam-se então de tal modo elevadas
que eles já não podiam os juros e portanto menos ainda os reembolsos. E uma vez
que um país se encontrasse numa posição sem saída, era obrigado a vender tudo o
que tinha (particularmente os seus minerais e o seu petróleo), mas
frequentemente a empresas dos Estados Unidos.
[16]
Empréstimos estrangeiros
Apesar de o Banco Mundial ter ensinado o contrário aos seus funcionários, os
créditos estrangeiros constituem a pior maneira de ajudar um país em
dificuldade. A única coisa que ele pode fazer com o dinheiro estrangeiro é
comprar produtos no estrangeiro e endividar-se mais.
[17]
Só no caso em que um país ter realmente necessidade de uma máquina ou de outra
coisa que não possa fabricar por si mesmo e em que, além disso, o fornecedor
recusa a moeda do país, pode ser justificado o empréstimo do estrangeiro.
Movimento livre de capital
E o que significaria a Eurolândia para os banqueiros? Os banqueiros perderiam
uma fonte de receitas importante: as comissões sobre o câmbio das numerosas
moedas nacionais. Mas ganhariam uma fonte de receitas bem mais importante: o
movimento livre de capital. Era uma pré-condição para uma moeda única. Graças a
isso os banqueiros podiam facilmente conceder empréstimos por toda a parte onde
pudessem ser feitos lucros.
O boom da construção na Europa do Sul
Internacionalmente os banqueiros acordaram um certo número de regras para si
próprios, que fixam limites ao montante total dos empréstimos que podem emitir
em relação ao seu capital. A norma é que devem dispor de pelo menos 8 euros de
capital para cada 100 euros de empréstimos em aberto no comércio e na indústria.
Contudo, para a construção de casas eles podem emprestar o dobro disso e
portanto colectar o dobro de juros.
[18]
Ainda há pouco tempo os banqueiros pensavam que os preços das casas não podiam
senão aumentar e que os empréstimos para a construção de casa eram, por assim
dizer, sem risco. Nascia assim o boom da construção em Espanha, Portugal,
Irlanda e alhures. O que os banqueiros esqueciam é que para reembolsar os
créditos os seus clientes deviam poder ganhar dinheiro. Seria preciso igualmente
que houvesse actividades económicas. Mas ao financiar actividades económicas
como a indústria e o comércio os banqueiros não podem colectar senão a metade
dos juros...
Socorro!
A Grécia já sabe o que é ter "amigos" europeus, que chegam com empréstimos e
exigem simultaneamente reduções enormes nas despesas públicas. Estes amigos têm
tal confiança na sua solução que fizeram entrar o cão raivoso do FMI para tomar
parte na tragédia grega.
[19]
Note-se de passagem que o euro agora é "assistido" pelo FMI. Seria divertido se
não fosse uma realidade tão trágica.
A Irlanda, Portugal e a Espanha também se encontram em dificuldade. Enquanto
permanecerem no euro, não poderão desvalorizar a sua moeda. O euro funciona
agora como uma taxa de câmbio invisível e imposta aos diferentes países. Os
países endividados têm um duplo problema. Em primeiro lugar, devem reduzir suas
dívidas até o nível admitido pela zona euro e em segundo devem evitar
endividar-se no futuro.
O primeiro problema geralmente é resolvido com medidas extremamente duras, como
cortes nas despesas sociais e culturais, na educação e saúde públicas, depois o
despedimento de funcionários e a privatização de infraestruturas (como os
aeroportos espanhóis) e de serviços públicos e, para coroar tudo, um forte
aumento de impostos. Estas medidas são agressivas e muito injustas para as
pessoas comuns, as quais não são responsáveis por esta tragédia. Muitas pessoas
cairão na pobreza. Terão elas oportunidade para sair?
Será que as coisas poderão ser melhores?
Para ter uma ideia, é preciso ver o segundo problema. Como se pode evitar que
países menos produtivos se endividem? Pois bem, não se pode. Não há
nenhuma maneira de impedir que as pessoas nos países menos produtivos importem
mais do que exportam. É mesmo lógico supor que preferirão comprar produtos menos
caros e melhores importados de países mais produtivos da zona euro. Este é o
defeito fundamental da moeda única num mercado comum composto por economias
muito heterogéneas.
Na minha opinião, as medidas duras que estes países tomam neste momento são
completamente inúteis se estes países não abandonarem o euro.
Más soluções
Uma má solução seria retornar à situação anterior ao euro e deixar que
banqueiros criassem o dinheiro e que inchassem a massa monetária com a sua
inflação eterna.
Algumas pessoas pensam que se os banqueiros não fossem mais autorizados a criar
dinheiro simplesmente a teclar numa conta bancária a inflação pararia. A única
coisa que pararia seria o efeito multiplicador dos haveres bancários.
[20] É
verdade que haveria então verdadeiro dinheiro nas nossas contas bancárias mas,
como indicado acima, os banqueiros têm necessidade de inflação. Eles
continuariam portanto a conceder cada vez mais empréstimos, mas ao invés de
criá-lo do nada teriam de tomá-lo emprestado junto ao banco central. Este pode
criar dinheiro indefinidamente. E, bem entendido, os banqueiros fariam com que
este custo suplementar fosse suportado pelos seus clientes. Os empréstimos
tornar-se-iam mais caros e a inflação nem por isso cessaria.
Uma outra má solução seria optar por uma moeda com base no ouro. Se bem que tais
moedas tenham existido no passado (nos Estados Unidos até 1971), o dinheiro
baseado no ouro tem muitas desvantagens. Os países sem minas de ouro seriam
obrigados a comprá-lo (ou seja, entregar bens e serviços aos países fornecedores
de ouro) com o simples objectivo de dispor de um meio de troca nacional. E cada
vez que chegasse mais outro ao mercado, seriam obrigados a comprar mais para
evitar que a sua moeda desvalorizasse em relação aos países que continuassem a
aumentar suas reservas de ouro. A indústria das minas de ouro deteria sob muitos
aspectos um poder supranacional, mesmo mais do que tem hoje a Reserva Federal. O
ouro não é um valor estável. Seu preço pode ser influenciado por aqueles que
detêm grandes stocks (como estas indústrias de minas de ouro e os bancos
centrais). Mesmo um grande número de pequenos vendedores e compradores, quando
actuam por medo ou por cobiça, pode influenciar o seu preço. Todas estas
flutuações de preços podem constituir um perigo para qualquer economia que tenha
a sua moeda ligada ao ouro. Mais ainda do que hoje, o ouro desencadearia
conflitos, opressão e guerras.
Toda cobertura do dinheiro por commodities, quer seja o ouro, a prata ou outra
coisa, terá um impacto severo sobre a moeda em causa, assim como sobre o preço
das commodities escolhidas.
A solução através do dinheiro estatal
A maior parte das pessoas pensa que o dinheiro é emitido pelo
Estado. É assim que deveria ser. O dinheiro deve pertencer à sociedade e não aos
banqueiros. É a única maneira de obter um sistema monetário justo e a única
maneira de ter um governo que não dependa dos banqueiros.
Neste momento temos um sistema monetário muito oneroso, com banqueiros que a
cada ano aumentam o seu capital com lucros gigantescos. Os banqueiros dirão que
têm necessidade deste capital para os casos em que têm de absorver perdas. Estas
perdas seriam deduzidas do capital. Pois bem, objectivamente os seus capitais
são enormes mas eles não cobrem senão uma fracção ínfima dos empréstimos
correntes. Se as perdas forem demasiado grandes, o capital desaparecerá
rapidamente. Mas se examinarmos mais atentamente os acordos internacionais entre
banqueiros, constata-se que eles não podem utilizar o seu capital obrigatório
para absorver perdas. Se eles deduzirem qualquer montante que seja do capital
obrigatório, há imediatamente vinte vezes mais empréstimos no balanço que deixam
de ser cobertos por capital. Portanto, o que vemos hoje são banqueiros que, ao
invés de sofrerem as suas perdas, correm simplesmente para o ministro da
Finanças para lhe dizer que têm necessidade de dinheiro fresco, pois doutra
forma não terão mais capital suficiente!
– Banco estatal
Pois bem, nós podemos acabar com este sistema oneroso e desonesto criando um
banco do Estado, o qual será o único banco autorizado a criar dinheiro no país.
Este criará o dinheiro necessário para os empréstimos no país, assim como para
avançar despesas do Estado. E quanto aos banqueiros privados, daí em diante
seriam proibidos de criar haveres sem disporem do dinheiro correspondente. Se os
banqueiros quiserem, poderão operar como intermediários entre o Banco do Estado
e o público para a emissão de créditos. Para isto receberiam uma provisão e não
juros. Poderão igualmente gerir as contas dos clientes em nome e por conta do
Banco do Estado. Deste modo os clientes podem manter suas contas bancárias
excepto no momento da conversão para a moeda nacional, não haverá interrupção
nos serviços de pagamentos interbancários. (No caso em que os banqueiros não
quiserem cooperar, o Banco do Estado deverá abrir seus próprios guichets, por
exemplo nas repartições de impostos.)
Além da sua nova função como intermediário para os empréstimos do Banco do
Estado ao público, os banqueiros poderão sempre reunir dinheiro existente para
formar fundos que poderão ser emprestado com juro. Uma vez que se tratará de
dinheiro existente, isso não criará inflação.
– Travagem da inflação
Com esta reforma o governo passa a dispor dos meios para travar a inflação.
Dispor dos meios não quer dizer que tenha de fazê-lo. É mais provável que os
governos só venham a travar a inflação progressivamente, pois a abordagem
gradualista da filosofia "a cobiça é bela" inclina-se a "cuidar do ambiente e do
futuro". E seja qual for a forma que assuma, não seremos obrigados a trabalhar
cada vez mais só porque os banqueiros querem isso de nós.
– Não mais dívida pública
Se o governo puder criar o dinheiro de que temos necessidade, a dívida pública
pode desaparecer.
A dívida pública forma-se quando o governo faz despesas para as quais os
impostos não foram arrecadados os impostos correspondentes. Neste momento,
pagamos muito em juros pelos Títulos do Tesouro que o Estado emite para
financiar estas despesas. Os banqueiros gostam muito de investir nestes Títulos
do Tesouro, pois eles proporcionam juros quase sem risco. Portanto, por um lado
o governo tem de se endividar para salvar os banqueiros e, por outro, os
banqueiros recebem juros sobre estas mesmas dívidas!
– Fundos de pensões complementares
Outros aproveitadores da dívida pública são os fundos de pensão complementares,
que dela retiram uma parte das suas receitas. Nossos pensionistas são pagos, em
grande parte, a partir deste juro, o qual, por sua vez é pago pelo contribuinte
do fisco. Uma outra parte é paga pelas contribuições de reforma da população
activa. Portanto, por trás da fachada, que deixa pensar que as pessoas põem
dinheiro de lado para a sua reforma, a maior parte do dinheiro que recebem
nossos pensionistas provém das contribuições de reforma e dos impostos pagos
pela população activa.
De facto isto é bastante lógica. Se o dinheiro fosse simplesmente armazenado
durante décadas e liberto a seguir, esta libertação apenas provocaria inflação.
O que se pode fazer com o dinheiro quando se está velho depende em grande medida
da força de trabalho e da produtividade da produtividade da população activa
nesse momento.
Uma outra parte das receitas dos nossos reformados provém de aplicações no
estrangeiro ou, para dizê-lo claramente, do trabalho de pessoas no estrangeiro.
Eticamente é como colonialismo financeiro. Nada para se orgulhar.
É por isso que seria mais lógico haver uma caixa de pensões gerida pelo Banco do
Estado. Ou para dizer de outra forma, a população activa deverá muito
simplesmente aceitar que deve tomar conta da população idosa. Os cidadãos, que
quisessem transferir seus direitos adquiridos nas caixas de aposentação privadas
para a caixa do Estado devem ter a liberdade para assim o fazer.
– Juros
Muitas pessoas acham que os juros não são éticos. Contudo, se uma parte do
produto dos juros for utilizada para absorver as perdas com os empréstimos que
não podem ser reembolsados, e quando o resto vai para o Tesouro do país, não
vejo inconveniente. Esta última parte diminuiria os impostos a arrecadar.
O governo poderia estabelecer taxas de juro variadas conforme o sector e o tipo
de investimento que deseja privilegiar. Ao invés de determinar brutamente uma
única taxa de juro, como o fazem os bancos centrais de hoje, o governo poderia
dirigir os empréstimos e os investimentos nas direcções necessárias.
Os juros são igualmente um meio útil para incitar os tomadores de empréstimos a
pagarem as suas dívidas em tempo.
– Ricos e pobres
Hoje, no momento da concessão de empréstimos, os banqueiros existem uma garantia
colateral que possam apreender se o tomador do empréstimo não pagar a sua
dívida. Deste modo os ricos sempre podem obter empréstimos e investir mais
facilmente, e portanto enriquecer mais, de modo mais fácil. O afastamento
crescente entre ricos e pobres é perigoso para a sociedade. O Banco do Estado
não tem necessidade de garantias. Pode-se comparar os impostos que ele concede
com dívidas fiscais. Se elas não forem reembolsadas, podem ser tratadas de modo
semelhante. Em princípio, os pobres poderiam tomar emprestado e investir tão
facilmente quanto os ricos.
Como explicado mais acima, num ambiente sem inflação é mais difícil reembolsar
empréstimos. Contudo, isto será compensado pelo facto de que as taxas de juros
poderão permanecer mais baixas, uma vez que não teremos mais de contribuir para
a capitalização cara e inútil dos bancos privados. Além disso, se necessário,
compensações suplementares podem ser oferecidas aos tomadores de empréstimos
através da política fiscal.
– Será que custa caro deixar o euro?
Alguns políticos procuram assustar as pessoas e pretendem que seria extremamente
custoso deixar o euro e que isso atrasaria o desenvolvimento económico durante
anos e assim por diante, etc. Pois bem, para começar, os países não param de
comerciar porque um país deixou o euro e tem uma nova moeda. E se este país
optar pelo dinheiro do Estado, os custos são principalmente organizacionais e
relativamente mínimos em relação aos ganhos obtidos.
Todo o dinheiro necessário à mutação pode simplesmente ser criado do nada pelo
Banco do Estado. Todos os euros em circulação no país poderão ser comprados pelo
Banco do Estado pela emissão de dinheiro novo. Estes euros poderão ser postos de
lado como reserva estratégica ou para o pagamento das importações.
O governo poderá recomprar todas as infraestruturas essenciais e de serviços
públicos do país. A reconstrução de empresas nacionais a partir das numerosas
empresas privadas e fragmentadas nos domínios da energia, correios, telefones,
ferrovias e outras levará certamente a serviços muito mais fiáveis. Nestes
serviços essenciais a qualidade e o cliente deveriam ter a prioridade. Isso não
significa um retorno às poeirentas empresas estatais de outrora. Empresas do
Estado podem perfeitamente ser geridas de um modo moderno e eficaz e, porque
não, proporcionar serviços bem melhores do que não importa qual empresa privada
em busca de lucros.
Não digo que todas estas mudanças sejam fáceis. Mas se quisermos alcançar uma
sociedade durável, onde a democracia e a liberdade ainda querem dizer alguma
coisa quando os nossos filhos e netos forem grandes, este é o caminho que é
preciso tomar.
– Resumo
A reforma, tal como a vejo, pode ser resumida no esquema abaixo. É favor prestar
atenção às notas sob o esquema.
Notas e referências:
[1] Nos estudos científicos sobre as "optimum currency areas" (regiões
óptimas para uma moeda) podemos distinguir aqueles que se centram nas condições
necessárias e aqueles posteriores a 1970 (quando os políticos decidiram que
queriam uma moeda única) que são mais centrados sobre os custos e os benefícios.
Roman Horvath e Lubos Komarek em "OPTIMUM CURRENCY AREA THEORY: AN APPROACH FOR
THINKING ABOUT MONETARY INTEGRATION" (2002)
(Tradução abaixo)
"It is possible to distinguish two major streams of the optimum currency area
literature. The first stream tries to find the crucial economic characteristics
to determine where the (illusionary) borders for exchange rates should be drawn
(1960s-1970s). The second stream (1970s-till now) assumes that any single
country fulfills completely the requirements to make it an optimal member of a
monetary union. As a result, the second approach does not continue in the search
for characteristics, identified as important for choosing the participants in an
optimum currency area. This literature focuses on studying the costs and the
benefits to a country intending to participate in a currency area".
"É possível distinguir duas correntes principais na literatura sobre as regiões
óptimas para uma moeda. A primeira corrente tenta encontrar as características
chave para determinar onde as fronteiras (imaginárias) para as taxas de câmbio
deveriam ser estabelecidas (anos 60 e 70). A segunda corrente (de 1970 até hoje)
supõe que não importa qual país individual responde inteiramente às exigências
para se fazer um membro óptimo de uma união monetária. Em consequência, a
segunda abordagem não continua a procurar as características, que foram
identificadas como importantes, para escolher os participantes numa região
monetária óptima. Esta literatura é centrada nos estudo dos custos e benefícios
para um país que tem a intenção de participar numa região [união] monetária".
http://wrap.warwick.ac.uk/1539/1/WRAP_Horvath_twerp647.pdf
, page 7 .
Friedman descreve as vantagens das taxas de câmbio flexíveis como se segue:
"Como se constata habitualmente, os preços e os salários num país são
relativamente rígidos e [estes] factores são imóveis entre países. Em
consequência, aquando de uma procura negativa ou de um choque na oferta, o único
instrumento para evitar uma inflação maior ou o desemprego é uma mudança na taxa
de câmbio flexível (o que quer dizer revalorizar ou desvalorizar a moeda). Isso
trará a economia de volta ao equilíbrio interno e externo inicial. (...) Sob o
regime de taxas de câmbios fixas, haveria sempre o impacto desagradável do
desemprego ou da inflação".
http://wrap.warwick.ac.uk/1539/1/WRAP_Horvath_twerp647.pdf
, page 8 .
[2] Yrd. Doç. Dr. Hüseyin Mualla YÜCEOL, Mersin Üniversitesi Ýktisadi ve
Ýdari Bilimler Fakültesi, Maliye Bölümü, em "WHY THE EUROPEAN UNION IS NOT AN
OPTIMAL CURRENCY AREA: THE LIMITS OF INTEGRATION" ("PORQUE A UNIÃO EUROPEIA NÃO
É UMA REGIÃO DE MOEDA ÓPTIMA: OS LIMITES DE UMA INTEGRAÇÃO")
"A Europa não é uma região de moeda óptima. Contudo, no dia 1º de Janeiro de
1999 onze país da UE iniciaram uma União Monetária Europeia adoptando uma moeda
partilhada, ou euro, embora a UE não responda a todos os critérios para uma
região monetária óptima. Além disso, aderir à UE não é a mesma coisa que aderir
ao euro, tanto para os antigos como para os novos membros".
http://eab.ege.edu.tr/pdf/6_2/C6-S2-M6.pdf
, page 66
[3] Paul de Grauwe, partes de um discurso:
(Tradução abaixo)
"With up to twenty-seven members instead of the present twelve, the challenge
for ensuring a smooth functioning of the enlarged Eurozone will be daunting. The
reason is that in such a large group the probability of what economists call
'asymmetric shocks' will increase significantly. This means that some countries
may experience a boom and inflationary pressures while others experience
deflationary forces. If too many asymmetric shocks occur, the ECB will be
paralyzed, not knowing whether to increase or to reduce the interest rates. As a
result, member countries will often feel frustrated with the ECB policies that
do not (and cannot) take into account the different economic conditions of the
individual member countries. This leads us to the question whether the enlarged
EMU will, in fact, be an optimal currency area." (...)
"If a country is hit by negative shocks brought about by agglomeration effects,
the wage cuts necessary to deal with these shocks will inevitably be very large.
To give an example: If Ford Motor were to close down a plant in Belgium and to
invest in Poland instead, the wage cut of Belgian workers that would convince
Ford Motor not to make this move would have to be 50% or more given that the
wage not feasible, then flexibility dictates that the Belgian workers be willing
to move."
"Hoje com vinte e sete membros ao invés dos doze, o desafio para assegurar um
funcionamento fluído da zona euro ampliada será terrível. A razão é que num
grupo tão amplo a probabilidade daquilo a que os economistas chamam "choques
assimétricos" aumenta de modo significativo. Isso quer dizer que certos países
podem experimentar um boom e pressões inflacionárias, ao passo que outros
experimentam forças deflacionárias. Se se verificarem demasiados choques
assimétricos, o Banco Central Europeu será paralisado, não sabendo se deve
aumentar ou reduzir as taxas de juro. Em consequência, os país membros muitas
vezes se sentirão frustrados pela política do Banco Central Europeu, que não tem
em conta (e nem pode ter em conta) as diferentes condições económicas nos países
membros individuais. Isto nos leva à questão de se a União Monetária Europeia
ampliada será uma região de moeda óptima". (...)
Se um país for afectado por choques negativos provocados por efeitos de
acumulação, os cortes salariais necessários para gerir estes choques serão
inevitavelmente muito importantes. Exemplo: Se a Ford Motors encerrasse uma
fábrica na Bélgica e em alternativa investisse na Polónia, os cortes salariais
que convenceriam a Ford a não deslocalizar teriam de ser de 50% ou mais. Uma vez
que tal salário não é factível, então a flexibilidade determina que os
trabalhadores belgas estariam dispostos a mudar-se".
http://mostlyeconomics.wordpress.com/2010/06/21/were-europes-curent-problems-never-imagined/
[4] NRC Handelsblad, 03/Junho/2010
"De Europese Commissie heeft op dit moment tegen 20 van de 27 EU-landen een
procedure lopen omdat deze landen de interne begrotingsregels van de Europese
Unie overschrijden."
"A Comissão Europeia encetou procedimentos contra 20 dos 27 membros da União
Europeia, uma vez que estes países infringem as regras orçamentais da UE".
http://www.nrc.nl/economie/schuldencrisis/article2558281.ece/Ambtenaar_betaalt_bezuiniging
[5] Julius Horvath em "Optimum currency area theory: A selective review"
Ghosh and Wolf (1994), for example, conclude the US is not an optimum currency
area and tentatively suggest separate currencies for different parts of the
United States.
Ghosh e Wolf (1994), por exemplo, concluem que os Estados Unidos não são uma
região monetária óptima e tentam sugerir moedas separadas para diferentes partes
dos Estados Unidos.
http://www.bof.fi/NR/rdonlyres/5C4E3CE4-0386-4FDB-886B-C276040CD183/0/dp1503.pdf
,
pg. 7
[6] Apesar das aparências, não podemos e não pagamos com dinheiro
"falso". Com o bocadinho de dinheiro real que resta, os banqueiros conseguem
executar nossas ordens de pagamento. Para uma explicação simplificada ver
"Débit, crédit, banco!", paragrafo "Jongler avec les paiements"
http://www.courtfool.info/en_Debit_credit_banco.htm
[7] Inflação e taxas de juro variem enormemente no decorrer do tempo. Ver
o gráfico " US rates 1940-1999"
http://www.courtfool.info/US_inflation_1940_1999.htm . Estas taxas não
mostram as despesas suplementares que os clientes devem frequentemente
desembolsar para obter os seus empréstimos, como seguros por exemplo. Os seguros
reduzem os riscos para o banqueiro, portanto aumenta os seus lucros com os
empréstimos. Portanto mesmo que você pague estes seguros a uma companhia de
seguros e não ao vosso banqueiro, eles constituem uma forma de juros
disfarçados.
[8] A inflação dos preços leva ao descontentamento da população. Eis
porque muitos países utilizam um Índice de Preços no Consumidor (IPC) que mostra
números mais agradáveis.
http://www.mw.ua/2000/2020/52764
"… the reference value (4.5%) of M3 growth on an annual basis. This reference
value for monetary growth is based on a potential economic growth of 2.0% to
2,5%, an inflation of less than 2.0% in the medium term and a long-term decline
of the velocity of money by 0.5% to 1.0%, per annum."
"... o valor de referência (4,5%) do crescimento do M3 numa base anual. Este
valor de referência para o crescimento monetário baseia-se num crescimento
económico potencial de 2,0% a 2,5%, uma inflação de menos de 2% no médio prazo e
um declínio a longo prazo da velocidade da moeda de 0,5% a 1,0% por ano".
http://www.dnb.nl/dnb/home/file/ar03_tcm47-146939.pdf (página retirada / não
mais acessível)
"In 2003, the money supply (M3) in the euro area grew at a rate of 8.0%, well
above the official reference value of 4.5%".
"Em 2003, o crescimento monetário (M3) na zona euro era de 8%, bem acima do
valor de referência oficial de 4,5%".
http://www.dnb.nl/dnb/home/file/ar03_tcm47-146939.pdf (página retirada / não
mais acessível)
Lembrem-se que quando políticos, funcionários ou o banqueiro central falam em
público da inflação", eles querem dizer a mudança no Índice dos Preços no
Consumidor.
O índice é baseado numa comparação anual do custo de um cabaz de produtos para
uma família "média". O conteúdo do cabaz varia de um país para outro, assim como
os métodos para o cálculo do índice. Um país pode incluir o custo da
alimentação, do combustível e da habitação, outro país pode deixar estes custos
de fora.
http://bigpicture.typepad.com/comments/2005/09/the_history_of_.html
http://www.goldandsilverexchange.info/consumer-price-index.html
Certos países publicam as categorias de produtos que incluem no cabaz, mas em
geral os produtos exactos permanecem secreto. Contudo, certos gabinetes de
estatística fazem alguns truques de prestidigitação, que praticam para obterem
índices favoráveis. Exemplo: mudam periodicamente o conteúdo do cabaz. Os
produtos cujo preço aumenta demasiado são retirados e substituídos por outros
mais baratos. Ou, quando o preço de um produto permanece estável, mas a
qualidade melhora, contam a melhoria da qualidade como uma baixa de preço.
Assim, para os computadores no cabaz, o Gabinete Central de Estatística (CBS)
nos Países Baixos conta uma baixa de preço de 64 por cento entre 1998 e 2003! E
eis o índice que baixa!
http://www.cbs.nl/NR/rdonlyres/AB3F1E9D-EFED-4FD9-9393-E59F762D5C9B/0/2007gevoelsinflatieart.pdf
gráfico página 6
http://www.cbs.nl/en-GB/menu/themas/prijzen/publicaties/artikelen/archief/2005/consumer-price-index-art.htm
Portanto, o conteúdo do cabaz é adaptado periodicamente. A justificação é:
"quando os preços sobem, as famílias também adaptam as suas compras". E o que
significa esta política de adaptação para o índice? Pois bem, uma vez que a
família média definida não pode gastar mais do que ganha, o aumento do custo do
cabaz é automaticamente limitado ao aumento das suas receitas. O IPC portanto
fará crer que a inflação não ultrapassa o aumento dos rendimentos.
Numa região vasta e heterogénea como a zona euro os países jamais serão
afectados do mesmo modo por grandes choques como a crise financeira. Para o BCE
é então impossível reagir com uma política que fosse boa para todos os países. O
BCE será constrangido a escolher uma política que convenha a alguns, mas não a
outros. E quando a política monetária não está adaptada isso pode provocar
grandes inflações. Neste caso também o IPC fará o seu melhor para mascarar a
realidade.
[9] O banqueiro central cuida de que a inflação continue eternamente a
guiar a taxa de juro.
[10] Os escritórios do Banco Central Europeu estão em Frankfurt. É a
cidade histórica dos Rothschild. Representantes das famílias Rothschild e Morgan
estiveram na base da criação da Reserva Federal nos Estados Unidos, em 1913. (G.
Edward Griffin em "The Creature of Jekyll Island")
[11] Propriedade BCE:
http://eur-lex.europa.eu/LexUriServ/LexUriServ.do?uri=OJ:L:2009:021:0066:0068:EN:PDF
, artikel 2.
[12] Exemplo: o banco central holandês é o Nederlandse Bank N.V. (DNB),
onde N.V. signfica Sociedade Anónima. É uma forma jurídica comum para empresas
com um capital em acções. Nos Países Baixos estas empresas têm a obrigação de
mencionar sempre o N.V. junto com o seu nome. Em 1929 uma lei especial
dispensava o De Nederlandse Bank N.V. de imprimir o N.V. sobre o seu papel
moeda, permitindo esconder à população que a sua moeda pertencia a uma sociedade
anónima.
http://www.dnb.nl/binaries/wo0649_tcm46-145952.pdf
The 4 members of DNB's governing board, the day-to-day direction, are appointed
by the Crown.
http://www.dnb.nl/en/about-dnb/organisation/governing-board/index.jsp
Of the 10 members of the supervisory board one member is appointed by the
government.
dnb.nl/en/about-dnb/organisation/supervisory-board-and-bank-council/index.jsp
All these members have strong bonds in the economy.
http://www.dnb.nl/binaries/Raad%20van%20Commissarissen_tcm46-185323.pdf (in
Dutch)
Of the 14 members of the bank council, one is the member of the supervisory
booard who is appointed by the government. (Nevertheless, he is as independent
from government as all others.)
dnb.nl/en/about-dnb/organisation/supervisory-board-and-bank-council/index.jsp
Notar que para o banco central trata-se de poder, influência e ampliação do
balanço e, regra geral, não tanto a obtenção de lucros, que muitos bancos
centrais revertem ao Tesouro do país.
[13] Independência dos bancos centrais:
http://www.ecb.int/press/key/date/1997/html/sp970513.en.html
[14] Os banqueiros centrais têm o poder sobre o sistema monetário (e
querem conservá-lo). Uma das razões é que têm a necessidade desesperada de
manter a inflação, pois sem isso o sistema enganoso não pode funcionar. Como
explicado, os bancos entrariam rapidamente em falência. Portanto os banqueiros
centrais querem o controle total sobre a taxa de juro. Contudo, para o mundo
externo eles pretendem desejar exercer este controle, uma vez que os governos
não seriam capazes de conduzir uma política monetária consistente a longo prazo.
Eles referem-se a uma situação em que um governo provocou uma grande inflação.
Banqueiros centrais conduzir-se-iam de modo mais responsável (!) e portanto
[querem] ter o controle sobre o sistema monetário sem nenhuma interferência do
governo. Eis um exemplo de como eles apresentam a coisa.
Alexandre Lamfalussy, President of the European Monetary Institute, at the
Oesterreichische Nationalbank, Vienna, 13 May 1997
"Modern economic theory emphasises the inflationary bias in economic policy,
which relates in particular to the so-called time-inconsistency issue, i.e. the
problem of convincing the public that the monetary authorities will resist the
temptation to stimulate output growth in the short run by creating "surprise
inflation". Against the backdrop of negative past experience, the public is
unlikely to have much faith in the authorities' promises to maintain low
inflation. Unless these promises are underpinned by a credible form of
pre-commitment, the equilibrium inflation rate will be higher than needed, with
no better performance in terms of output and possibly even a deterioration. As a
solution to this problem, it has been suggested that responsibility for monetary
policy be separated from political control and to enshrine this in legislation.
According to this view, central banks should be given the freedom to formulate
and execute monetary policy in line with their primary objective as determined
by the legislator, to whom they are accountable. Accountability may involve
either a legal obligation for the central bank to give reckoning for the conduct
of monetary policy or a commitment to explain its actions, for example, in
regular reports and to parliament. This allows central banks to take a
medium-term orientation and not to be distracted by short-term political
motives, an approach which benefits the credibility, transparency and efficiency
of monetary policy."
http://www.ecb.int/press/key/date/1997/html/sp970513.en.html
[15] Pierre Werner foi um banqueiro luxemburguês muito influente. Em 1944
participou na Conferência de Bretton Woods, que deu origem ao Banco
Internacional para a Reconstrução e o Desenvolvimento (International Bank for
Reconstruction and Development, IBRD), ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e
aos Acordos Gerais sobre Tarifas e Comércio (General Agreement on Tariffs and
Trade, GATT). Em 1970 ele era também ministro das Finanças e primeiro-ministro
do Luxemburgo. Além disso, em 1969 havia presidido o Conselho da Comunidade
Económica Europeia.
http://www.terra.es/personal2/monolith/eu.htm
[16] John Perkins numa entrevista na Talkstick TV (tradução francesa e
link no YouTube, ver abaixo.)
"The fact of the matter is our job was to convince other countries to take very
large loans [given by the World Bank]... Let's say a billion dollars to Ecuador
to build big infrastructure projects: power plants, ... ports, highways,
industrial parks. Things that didn't benefit anybody except the very wealthy
people in those countries who were quite corrupt, and we corrupted them... 90%
of that billion dollars would come back to the United States to pay for
Halliburton, Bechtel, these types of companies to build the infrastructure.
Then the country would be stuck with this huge debt, which over time would
continue to be refinanced and get larger and larger and larger. So that in fact
today Ecuador owes more than 50% of its national budget just to pay down its
debt service which means there's very little money left to pay for education and
health services for the poor people who are the ones who suffer from these
projects. It was their rivers that were destroyed when we built these
hydro-electric plants, it was their land that was destroyed...
Now they're saddled with this incredible debt that they can't possibly pay. And
so we go in and demand our pound of flesh, very much like the mafia... We need
Ecuador's oil... We tell Ecuador, 'Since you can't pay off your loans, what you
need to do is to turn over your Amazon to our oil companies... What it is all
about is building empire. We've done this in every country around the world that
has resources that we covet, often this is oil in places like Indonesia,
Nigeria, Ecuador, Venezuela, and. Colombia. But sometimes its other resources,
for example in Panama it was the Panama Canal. "
"O facto é que o nosso trabalho era convencer outros países a tomarem
empréstimos muito grandes [fornecidos pelo Banco Mundial] ... Digamos mil
milhões de dólares para o Equador a fim de construir grandes projectos de
infraestruturas: centrais eléctricas, auto-estradas, parques industriais. Coisas
que não beneficiavam ninguém além das pessoas muito ricas neste país, as quais
eram relativamente corrompidas e nós as corrompíamos... 90% destes mil milhões
de dólares retornariam aos Estados Unidos para pagar a Halliburton, Bechtel,
este tipo de empresas que construíam a infraestrutura.
A seguir o país seria paralisado por esta dívida enorme, que com o tempo devia
ser refinanciada e tornar-se cada vez maior. De tal modo que hoje o Equador deve
mais de 50% do seu orçamento nacional para pagar estas dívidas, o que quer dizer
que não sobra senão muito pouco para pagar a educação e os serviços de saúde
pública para as pessoas pobres, as quais são as que sofrem com estes projectos.
Eram os seus rios que destruíamos ao construir estas centrais eléctricas, eram
as suas terras que destruíamos...
Agora eles têm esta dívida incrível nos braços e jamais poderão pagá-la. E nós
entramos e pedimos a nossa porção de carne, muito à semelhança da Mafia... Se se
tiver necessidade do petróleo do Equador, nós lhe dizemos; "Uma vez que não
podem pagar a vossa dívida, o que devem fazer é entregar a vossa Amazónia às
nossas companhias de petróleo... Tudo isso é a construção de um império. Fizemos
isso por toda a parte do globo em todos os países que têm recursos que
desejamos, muitas vezes trata-se de petróleo em lugares como a Indonésia, a
Nigéria, o Equador, a Venezuela e a Colômbia. Mas algumas outros recursos seus,
como por exemplo no Panamá, em que era o Canal do Panamá".
YouTube:
http://www.youtube.com/watch?v=yTbdnNgqfs8
Joseph E. Stiglitz, num entrevista em 2001:
"As the chief economist at the World Bank from 1997 to 2000, I have seen
firsthand the dark side of globalization; ... how so-called
structural-adjustment loans to some of the poorest countries in the world
'restructured' those countries' economies so as to eliminate jobs, but did not
provide the means of creating new ones, leading to widespread unemployment and
cuts in basic services.."
"Como economista chefe no Banco Mundial de 1997 a 2000 vi em primeira-mão o lado
escuro da globalização; ... como os chamados empréstimos de ajustamento
estrutural a alguns dos mais pobres países do mundo "reestruturaram" as
economias daqueles países de modo a eliminar empregos, mas não proporcionaram os
meios de criar outros novos, levando à generalização do desemprego e a cortes em
serviços básicos".
http://secret-of-life.org/the-World-Bank-and-IMF
Ver igualmente: THE IMF AND IRELAND: WHAT WE CAN LEARN FROM THE GLOBAL SOUTH
http://www.dublinopinion.com/downloads/Afri_Report_on_EU_IMF_Loan_Deal.pdf
[17] David C. Korten, in "One World--One World Government Bretton Woods
or The United Nations?"
(tradução abaixo)
"It was all so simple. The World Bank trained cadres of young economists,
teaching them to believe that rapid development depends on foreign borrowing to
supplement investment based on domestic savings. Few seemed to notice the
obvious -- that when you borrow abroad you are borrowing foreign money that is
only useful to buy foreign products, thus increasing your economy's dependence
on imports. You are also building up foreign debts that can only be repaid by
exporting ever more of your domestic resources and production. Almost inevitably
you end up at the mercy of foreign lenders -- like the World Bank."
"Era tudo tão simples. O Banco Mundial treinava quadros de jovens economistas,
ensinando-lhes a acreditar que o desenvolvimento rápido depende de empréstimos
estrangeiros para complementar o investimento baseado em poupanças internas.
Poucos pareciam perceber o óbvio – que quando você toma emprestado no exterior
está a tomar empréstimo em moeda estrangeira que só é utilizável para comprar
produtos estrangeiros, portanto agravando a dependência da sua economia de
importações. Também está a acumular dívidas externas que só podem ser
reembolsadas através da exportação cada vez maior dos seus recursos e produção
internos. Quase inevitavelmente você acabará à mercê de prestamistas
estrangeiros – como o Banco Mundial".
http://www.ratical.com/co-globalize/ifg041400DK.html
[18] Os acordos de Basileia
http://www.parl.gc.ca/information/library/PRBpubs/prb0596-e.htm
[19] NRC Handelsblad, 11 Fevereiro 2010
O deputado holandês Frans Weekers dizia que a Grécia deve os seus problemas
exclusivamente a si própria. Segundo ele os gregos "enganaram e ludibriaram" a
União Europeia durante anos com números falsos acerc da sua posição financeira.
"É a punição do mercado para a Grécia", segundo Weekers. (Continuação
abaixo...)
http://vorige.nrc.nl/economie/article2481429.ece/Kamer_Geen_Nederlandse_steun_aan_Griekenland
Pois bem, se Weekers se houvesse informado um pouco, teria podido saber isto:
Segundo Nikolaos Salavrakos, membro do Parlamento Europeu, em "The Greek Fiscal
Crisis: Is there a way Out?" / "A crise fiscal grega: Haverá um meio de saída?"
"Em 1974 a dívida pública grega era apenas 22,5% do seu Produto Interno Bruto
(PIB) e em 1979, quando a Grécia assinou a sua entrada na Comunidade Económica
Europeia, era 31,7%. Ela atingiu os 36,1% em 1981 e em 1989 era de 85,3%. A
dívida pública continuava a subir e, assim, em 1993 havia atingido um nível
surpreendente de 110,1% do PIB. Foi ligeiramente reduzida para 106,6% em 2001 e
102,4% em 2003. Assim, mesmo com as estatísticas oficiais do período 2000-2003,
a dívida grega foi sempre elevada. Contudo, a Grécia entra na União Monetária
Europeia a 1 de Janeiro de 2001 como o seu décimo segundo membro. Era evidente
que todo o mundo (os mercados, os políticos, a Comissão Europeia) sabia que um
país com uma dívida superior a 100% do seu PIB se tornava membro da União
Monetária Europeia".
http://www.efdgroup.eu/news/99-the-greek-fiscal-crisis-is-there-a-way-out.html
Até 18 de Dezembro de 2010 o FMI forneceu mais de 10 mil milhões de euros de
crédito à Grécia. Aparentemente as condições não foram tornadas públicas.
[20] C. van Ewijk & L.J.R. Scholtens em "Geld, Financiële ellingen" (em holandês) Ver "Multiplicação do dinheiro" / "Geld
vermenigvuldiging"
Publicado a Janeiro/2011 Última modificação em 23/Março/2011
Título original: Out of the euro, and then?
Tradutor
português: Resistir.info, Março 2011
É autorizada a republicação deste artigo em jornais e sítios web.
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